
Quem investe, empreende ou simplesmente acompanha o mercado acordou hoje com uma daquelas notícias que a gente sabia que um dia chegaria — e mesmo assim doeu um pouquinho: Warren Buffett, aos 96 anos, deixou a presidência do conselho da Berkshire Hathaway.
O comunicado saiu nesta sexta-feira. Warren passa a presidente emérito, com efeito imediato, e continua como membro do conselho. Quem assume o posto é o filho, Howard G. Buffett, 71 anos, diretor da empresa desde 1993. Não é uma surpresa: é a etapa final de uma transição planejada com anos de antecedência. No fim do ano passado ele já havia deixado o cargo de CEO, hoje ocupado por Greg Abel, seu colaborador de longa data.
Quase seis décadas, US$ 1 trilhão
Vale parar um minuto para dimensionar o que isso significa. Warren assumiu uma Berkshire que era uma fábrica têxtil em declínio, e a transformou, ao longo de cerca de seis décadas, num conglomerado avaliado em mais de US$ 1 trilhão: Geico (líder em, e uma espécie de Porto, seguros), a ferrovia Burlington Northern Santa Fe, participações em Apple e Coca-Cola, e uma reserva de caixa superior a US$ 360 bilhões.
E fez isso do jeito mais desconfortável possível para o mundo financeiro: sem hype, sem pivot de narrativa a cada trimestre, com uma carta anual escrita em português claro (ok, em inglês claro) e uma reunião de acionistas que virou o “Woodstock dos capitalistas”. Dezenas de milhares de pessoas viajam todo ano a Omaha, Nebraska, para ouvir um senhor falar de seguros e de paciência. Difícil imaginar outro gestor que faça isso.
Na carta de despedida aos acionistas, ele escreveu: “Servir como seu presidente foi o privilégio de uma vida, e nunca considerei a confiança de vocês algo garantido.” Repare no detalhe: confiança como algo que não se toma por garantido. Se eu tivesse que resumir Warren em uma frase, seria essa.
Greg Abel disse que o impacto de Warren “não tem paralelo na história dos negócios americanos”, e que a cultura e os valores que ele construiu continuam no coração da Berkshire, com Howard como guardião. Cultura como ativo. Quem é founder sabe o quanto isso é raro, e o quanto é difícil de passar adiante.
O dia em que o “PIB da sala” subiu um pouquinho
Tenho uma história pessoal com este senhor, e ela é boa.
Era 10 de abril de 2017, e eu estava nos EUA, no MIT-Harvard Brazil Conference, evento realizado em Cambridge pelos alunos das 2 renomadas universidades americanas, para debater temas ligados ao Brasil.
Um dos painéis tinha Jorge Paulo Lemann, que depois veio a investir na Movile, como convidado num bate-papo com o reitor de Harvard.
Ao chegar no prédio do campus, notei uma movimentação enorme de segurança e polícia do lado de fora. Conclusão óbvia: era tudo por causa do Lemann, um dos homens mais ricos do mundo.
O painel começou. O reitor entrou com o Lemann, que sentou ao lado dele. Ao lado dos dois, uma terceira cadeira vazia. Ninguém estranhou: pensamos que a sala já estava montada de outra reunião.
O reitor começou a apresentar, de forma genérica, um investidor: inspirador, bilionário, referência no mundo dos investimentos, alguém que tinha deixado seu nome marcado no mercado de ações apoiando empresas icônicas (sem citar nenhuma). Todos ouvíamos entediados, achando que era só um jogo de confete educado para valorizar a presença do Lemann.
Até que, de repente, ele convida a plateia a se juntar a ele para dar as boas-vindas a... Warren Buffett!!
Silêncio, e uma sala inteira se entreolhando.
Warren nem estava na lista de palestrantes. (E dar boas-vindas ao Lemann, que já estava sentado ali do lado, não fazia o menor sentido, mas a gente só percebeu isso depois.)
Então uma porta se abre e entra, de surpresa, inclusive para o Lemann, o mítico Warren Buffett, de carne e osso, a poucos metros de mim. De repente, aquele aparato de segurança lá fora começou a fazer um pouco mais de sentido. 💰
Fiquei emocionado de verdade. Eram dois dos meus ícones e ídolos, ali, batendo um papo, na minha frente. Lembro de ter comentado com um colega: “O PIB da sala acabou de subir um pouquinho.” 🤑
Guardo até hoje, com muito carinho, a foto que consegui tirar:

3 quotes do Oráculo que todo founder deveria ter na parede
Warren nunca investiu em startups de venture capital, mas poucos falaram tanto sobre o que faz um negócio (e um empreendedor) durar. Escolhi três que vivo repetindo por aqui:
1. Sobre reputação
“It takes 20 years to build a reputation and five minutes to ruin it. If you think about that, you’ll do things differently.”
“Leva 20 anos para construir uma reputação e cinco minutos para arruiná-la. Se você pensar nisso, vai fazer as coisas de forma diferente.”
Em early stage, o deal é fechado muito mais em cima de gente do que de planilha. O cap table esquece o desconto, mas não esquece a mentira. Reputação é o único moat que o founder constrói desde o dia zero, e o único que não dá para comprar depois.
2. Sobre ciclos e disciplina
“Only when the tide goes out do you discover who’s been swimming naked.”
“Só quando a maré baixa é que se descobre quem estava nadando pelado.”
Quem viveu 2021 e 2022 no ecossistema sabe do que estou falando. Enquanto a liquidez é farta, todo mundo parece genial. Quando a maré baixa, o que sobra é caixa, margem e disciplina. O founder que construiu um negócio de verdade nunca precisou torcer para a maré subir.
3. Sobre paciência
“Someone’s sitting in the shade today because someone planted a tree a long time ago.”
“Alguém está sentado à sombra hoje porque alguém plantou uma árvore há muito tempo.”
Talvez a mais bonita, e a mais apropriada para o dia de hoje. Uma empresa que passa de pai para filho, de um CEO para outro, sem trauma, é uma empresa que foi plantada para durar. Startup também é isso: a gente planta hoje uma árvore cuja sombra vai ser aproveitada por quem entrar depois. Pelo time, pelos clientes, pelos próximos coinvestidores.
O que fica
Warren não vai a lugar nenhum: segue no conselho, e seu legado vai muito além de qualquer cargo. Mas é inegável que estamos vendo o fim de uma era. Um capítulo em que um único sujeito, com simplicidade e consistência, mostrou ao mundo que juros compostos, caráter e tempo ganham de quase tudo.
Aqui na Smart Money Ventures, a gente tenta aplicar essa mesma lógica em escala bem mais modesta (por óbvio): olhar para gente antes de olhar para número, ter paciência com o round, e lembrar que, no longo prazo, o que sobra é confiança.
Obrigado, Warren. E boa sorte, Howard e Greg — vocês têm um legado e tanto para guardar. 🚀
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